Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
dois filmes
Jean Charles tem seu interesse, sobretudo no que diz respeito à vida de alguns brasileiros que vivem ilegalmente em Londres, e as peculiaridades que cercam essas pessoas, trabalhando freneticamente para 'se arranjar' na vida. Um Selton rechonchudo dá conta do recado, e está muito à vontade num certo clima de 'eletricidade' : ele é eletricista de profissão no filme, e se move eletricamente na tela.
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A era do gelo 3 é quase o mesmo filme, mas um pouco mais longo, com muito, muito mais dinossauros. Acho o mais fraco dos três.
De todo modo, diversão e entretenimento, com o plus da dublagem do
Matheus Nachtergaele para a preguiça Sid, que acho o mais engraçado dos personagens.
De repente, calífórnia
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De repente, Califórnia é uma delícia de ver: história romântica a mais não poder, personagens belíssimos, mais que isso, absurdamente belos, o que já coloca o espectador em estado meio de suspensão, porque beleza demais também dá um pouco de aflição.
Há o conflito clássico: dois protagonistas que enfrentam adversidades para viver o amor que recém-descobrem, desde as financeiras até as familiares, na figura de uma irmã solteira que tem um filho, e dele se descuida, deixando para o irmão a tarefa de cuidá-lo e amá-lo como não o faz o pai ausente. Ponto para o mocinho.Além disso, ele é um artista nato, que já abriu mão uma vez de frequentar a escola de arte, mas com a ajuda do novo amor engrena essa nova etapa da vida, um passo vigoroso em direção a um novo lugar, novo estado de ser. É bonito de ver pessoas jovens vivendo em direção a suas vidas mais plenas, na verdade, é a vida mesma movendo-se a partir daquele grupo que nos toca.
Todos vão em direção a algum lugar, e porque movidos por altos sentimentos, só podemos supor que se trata de um lugar melhor. Por isso o filme faz bem - a vida em ação e em acontecimento energiza.
Não ia observar que os dois protagonistas são rapazes, mas talvez precisasse sublinhar quão leve e delicado e sensível e terno tudo acontece na tela (eu já disse que há um tanto de conto de fadas na história?). Filme para se rever.
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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
Fora sarney
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Renato Pompeu de Toledo escreve um artigo excelente na última página da mais recente Veja - "Politicolíngua, série Sarney", e replico aqui alguns trechos:
[...]
Lixeiras e despensas – "Julguei que tivesse sido eleito para presidir politicamente a Casa, e não para cuidar de sua despensa ou para limpar suas lixeiras", disse Sarney. O titular do baronato do Maranhão e Amapá olha-se no espelho do salão e o que vê é o estadista. Que desagradável o barulho que vem da cozinha. Que insuportável o cheiro das estrebarias. O que lá se produz é não apenas necessário, como obedece aos propósitos do grão senhor. Mas por que fazê-lo deixando escapar o som e o cheiro? O Sarney que José Sarney imagina no espelho é o literato sensível, o detentor da sabedoria, o benfeitor das gentes e o salvador da pátria. Acreditaria José Sarney em José Sarney?
Mordomo – A denúncia de que outro frequentador da folha do Senado, Amaury de Jesus Machado, por alcunha o "Secreta", na verdade prestaria serviço de mordomo à governadora Roseana, filha de Sarney, provocou a indignação do patriarca. "O Senado nunca pagou nenhum mordomo", disse. "A senadora Roseana não tem mordomo em casa." A indignação, ainda uma vez, era contra a palavra. Mordomo não, mordomo nunca, mas, a começar da própria Roseana, ninguém da família negou que o "Secreta" (de "secretário", embora pudesse ser também de "secretamente lotado em lugar indevido") seria um faz-tudo a serviço da hoje governadora do Maranhão. "Ele é meu afilhado. E vai lá em casa quando preciso, umas duas ou três vezes por semana."
Pessoa incomum – A frase que vai ficar como emblema do rodamoinho que envolve o presidente do Senado foi produzida pelo presidente Lula: "Sarney não pode ser tratado como se fosse uma pessoa comum". Não é que ele tem razão? Não é em qualquer um que a fantasia do estadista convive com a resistente realidade do oligarca nordestino, cercado de parentes e agregados, quando não são afilhados, ou afilhados da filha, os limites entre os bens públicos e privados embaralhados e manipulados segundo os interesses do clã. Com força incomum, Sarney puxa o Brasil para trás.
[...]
http://veja.abril.com.br/010709/pompeu.shtml
Fora sarney
Para quem se interessar, o blog FORA SARNEY está coletando assinaturas de todos que não aguentam mais tanta roubalheira e queiram expressar isso (acho que ficará mais na expressão, pois tirar mesmo o homem de lá vai ser difícil).
http://www.forasarney.com/
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Sábado, 27 de Junho de 2009
Eucanaã
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Descobri o site do Eucanaã há pouco. Gosto da poesia dele quase toda, há uma técnica perceptível, uma vontade estética que tem parentesco, às vezes, com Cabral, mas ele fala uma linguagem poética própria.
Hoje saiu uma entrevista dele no Idéias & Livros do JB em que diz que escreve poesia, em grande medida, por causa de Manuel Bandeira.
Os poemas vieram do blog dele, url ao lado, vale a visita.
E ele também coedita a revista on line Errática, muito boa.
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O equilibrista
certa idéia que lhe soa
clara, exata.
No entanto, hesita: que palavra
a mais bem medida e cortada
para dizê-la?
Enquanto não lhe vem o verso, a frase, a fala,
segue lacrada a caixa
no alto da cabeça.
In Rua do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2004; Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007.
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Procurar palavra...
Procurar palavra
em palheiro.
Sem circunlóquios,
não faltando à clareza.
Obstáculos
não façam extensa
e fatigante a marcha
contra o dicionário.
O gesto necessário.
E só.
In Desassombro. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2001; Rio de Janeiro: Sette Letras, 2002.
Móbile
e luz, que recobri com a pele,
onde instalei meus ossos desatados percutindo
no vento, está lá
o arabesco,
sem arrimo, pingando um tempo estacionário entre
palmeiras, contra o céu da Voluntários, o Cristo
ao fundo, o cinema. Seu movimento
hesita, esgrima, cigarra, urina, é-não-é,
flores da ferrugem, palavras fáceis e cento
e um dentes ameaçando carros e coisas
elétricas, edifícios em fila, famílias. Fiz
o que tinha de ser. Ficou lá, inútil, ardendo
sobre o trânsito,
o móbile
gigante que seus olhos não viram,
que seus olhos não quiseram,
que seus olhos não e não.
Ficou lá, inútil, adiado
sobre o domingo,
o monstro
que seus cuidados não souberam,
que seu medo não quis,
que nem ao menos.
Está lá, inútil, ardil desativado,
sobre nada,
lixo,
lixo,
mas, esteja certo disto, tinha o tamanho
certo de nos vestirmos com ele, para,
dentro dele, suspensos,
descansarmos na palma um do outro, acredite,
era lindo, era fácil,
era puro.
In Cinemateca. São Paulo: Cia das Letras, 2008; Lisboa: Quasi Edições, 2000.
Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
Michael
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Não tinha relação especial com a música do Michael Jackson, mas a dança achava muito bonita.
A figura dele era meio assustadora, claro, pelo tanto que a loucura pode ser desenhada no rosto, no corpo, na vida.
Morreu muito jovem. Mesmo para alguém que começou tão cedo a trabalhar, a cantar e a sofrer.
(até hoje não tenho certeza sobre o que pensar de sua conduta com relação às crianças - amor puro ou doença?).
Enfim, rest in peace.
Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
Tinha que ser você
Tinha de ser você a gente assiste com um sorriso nos lábios, de prazer - é agradável, os diálogos são leves e interessantes, os atores têm simpatia e química, na verdade, os dois atores são quase tudo que o filme tem - Emma Thompson incrivelmente charmosa, e o Dustin Hoffman com seu eterno biquinho e jeito meio zombeteiro, mas ambos funcionam muito bem juntos, a gente percebe que são amigos, que estão curtindo fazer aquele trabalho.
E, claro, trata-se de uma comédia romântica que fala do amor entre pessoas com mais de 50; fala também de superação, de recomeços, de tocar outro ser com sua presença, de dar força para o outro crescer, ficar melhor. Vale ser visto e faz bem à saúde mental.
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Domingo, 21 de Junho de 2009
Geraldo e os tempos
Assisto no Canal Brasil a um show do Geraldo Azevedo no Circo Voador, boba de ver o tanto de gente jovem aplaudindo e cantando os sucessos dele.
Sou transportada a um tempo muito, muito anterior, quando suas músicas compunham uma espécie de rito de passagem, circulavam em grupos restritos e, no meu grupo de então, ele era ouvido como se fosse parte de uma cultura especial, que compartilhávamos. Nos sentíamos especiais porque curtíamos sua música - e éramos, como todos os jovens o são a seu tempo. Tempo, tempos.
Hoje vejo o Geraldão cantando bonito, mesmo com a voz mais fraquinha, um rosto marcado, o timbre muito particular, o sotaque nordestino, e por instantes brechas do tempo e daquele então se presentificam. Não há exatamente nostalgia, mas uma sensação forte de estar viva, de ser parte daquela gente que o admira, de fazer - ou já ter feito - parte da tchurma.
Bicho de Sete Cabeças
Geraldo Azevedo
Composição: Geraldo Azevedo - Zé Ramalho - Renato Rocha
Não dá pé não tem pé nem cabeça
Não tem ninguém que mereça
Não tem coração que esqueça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez
Ter feito o que você me fez
Desapareça cresça e desapareça
Não tem dó no peito
Não tem jeito
Não tem coração que esqueça
Não tem ninguém que mereça
Não tem pé não tem cabeça
Não dá pé não é direito
Não foi nada eu não fiz nada disso
E você fez um bicho de 7 cabeças
Bicho de 7 cabeças
Não dá pé não tem pé nem cabeça
Não tem coração que esqueça
Não tem ninguém que mereça
Não tem jeito mesmo
Não tem dó no peito
Não tem nem talvez
Ter feito o que você me fez
Desapareça
Bicho de sete cabeças, bicho de sete cabeças
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Dia Branco
Geraldo Azevedo
Composição: Geraldo Azevedo/ Renato Rocha
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.
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Caravana
Composição: Geraldo Azevedo e Alceu Valença
Para osvjor, que lembrou:Corra não pare, não pense demais
Repare essas velas no cais
Que a vida é cigana
É caravana
É pedra de gelo ao sol
Degelou teus olhos tão sós
Num mar de água clara
Leitor de Onetti
Onetti continuará para sempre en mi vida, e antes de começar a ler os 47 contos (completos) publicados pela Cia das Lletras, com tradução da poeta Josely Vianna Baptista, paro fascinada com a precisão e o encantamento do prefácio escrito por Antonio Muñoz Molina, sob o título “Sonhos realizados – um convite aos contos de Juan Carlos Onetti”, que não apenas situa, esclarece, sugere chaves de leitura para os contos, mas se mostra um leitor apaixonado pela obra onettiana. Gosto de ler crítica em que o autor, além de mostrar algum domínio do assunto de que trata, no caso a obra, também se coloca pessoalmente ali, empenha-se numa história de sua própria leitura, e é isso que faz com maestria o Antonio Muñoz.
Dentre todas as coisas interessantes que diz difícil será recortar algum trecho:
"Há escritores que admiramos como se admira um edifício ou uma estátua, com reverência, mas sem intimidade: são os escritores que parecem dirigir-se a nós em público, como se fizéssemos parte da multidão que os escuta de um modo não muito diferente de como se pode escutar um astro de ópera. Com Onetti ocorre o contrário: não se trata, apenas, do fato de que, ao lê-lo, nossa tendência seja pensar que essas palavras foram escritas apenas para nós, mas de que assistimos, com despudor, milagrosamente, a uma narrativa que existiria do mesmo modo se ninguém a conhecesse nem a escutasse. Intuições semelhantes podem ser encontradas na pintura ou na música: há canções, e sinfonias, e quadros, que se exibem enfaticamente diante do espectador, que o adulam, que desejam descaradamente seduzi-lo, maravilhá-lo ou constrangê-lo. Os retratos de Van Dyck nos olham de cima, do alto de sua hierarquia absolutista, de seu desprezo: quando é Velázquez, um rei que é dono do mundo aparece tão sozinho e vulnerável ou tão digno quanto um mendigo ou um bufão. Velázquez é grande porque respeita e sugere o segredo humano de seus personagens: eles nos olham e parece que se olham num espelho, do jeito que alguém se olha quando sabe que está sozinho. Na música de Fauré, nas “Variações Goldberg”, nos solos de piano de Bill Evans, na voz de, Bessie Smith ou de Dinah Washington parece que estamos surpreendendo um milagre que não precisava de nós nem de nenhuma testemunha para existir. Essas formas supremas da arte criam ao seu redor uma espécie de espaço íntimo, feito uma redoma de vidro na qual é preciso encerrar-se a sós para compreendê-las: delimitam o espaço e o tempo em torno de si mesmas.
Com Onetti dá-se o mesmo. A atenção normal, sempre um pouco distraída, que dedicamos aos livros, mesmo a alguns dos que mais gostamos, não nos serve perante os dele. Ao ler Onetti é preciso que se tensionem as destrezas usuais da leitura a um grau máximo, como se ouve uma música na qual não há uma única nota que não importe, ou como se vive um encontro memorável do qual se quer aproveitar sem distração cada segundo: suas páginas nunca se esgotam, e cada frase volta a surgir com tal delicadeza e poder, com uma intensidade tão arrebatadora, ou tão insuportável, que temos sempre a impressão de que a lemos pela primeira vez."
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Antonio Muñoz Molina. “Sonhos realizados: um convite aos contos de J. C. Onetti”. In 47 contos de J. C. Onetti. Trad. Josely Vianna Baptista. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
Terça-feira, 16 de Junho de 2009
Garapa
Não se pode dizer que os personagens do filme Garapa não estão estacados naquela situação de miséria absoluta, e mesmo com o programa fome zero, que é só o que eles têm, aqueles personagens não têm saída.
E também não se pode dizer que eles são personagens, eles são pessoas que vivem na mais absurda miséria, bem ali no Ceará, mas também no Maranhão, no Pará, no Mato Grosso, em qualquer interiorão desse país. Também não se pode dizer que são cidadãos aqueles seres, porque lhes falta tudo, menos filhos, fome e muriçocas (uma das crianças está devastada pelas picadas dos mosquitos, mas isso parece ser o de menos).
Enfim, como é que se pode falar de Garapa? Por onde começar? O que dizer? Talvez que o filme seja o que de mais próximo Graciliano poderia ter desejado para seu Vidas secas. Talvez. Mas a situação dessas três famílias é pior, eu acho. Pelo menos havia alguma dignidade em Fabiano, em sinhá Moça... até Baleia era / é um cão com uma certa graça.
Aqui é tudo muito pior, até porque já se passaram 71 anos desde a triste retirada, e esses miseráveis do filme continuam na mesma. E não têm saída. Eles não têm saída. O fome zero ajuda a mantê-los vivos por mais algum tempo, mas não lhes dá emprego, não lhes dá escola, não lhes devolve a dignidade. Vivem um pouco como bichos, as crianças sobretudo, infestadas de verminoses, de moscas e de mosquitos.
Os homens parece que estão numa situação pior - as mulheres pelo menos agem, fazem garapa pros filhos, varrem o chão com vassoura de palha, lavam roupa, cuidam do que podem. Os homens não têm horizonte, já que não têm como prover nada - não tendo trabalho ficam a esmo, o olhar mirando o nada, quando não são tomados pela bebida, ou pela loucura.
Não há saída pra eles, não tem fome zero que dê jeito naquela situação. Seria necessário criar alternativas de trabalho praqueles homens, criar escolas praquelas crianças, tem de ser possível reverter isso.
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Domingo, 14 de Junho de 2009
No coração do país
Terminei de ler há algum tempo No coração do país, o segundo livro de John Maxwell Coetzee, publicado em 1977, e achei um romance espantoso, forte, denso, embora alguns aspectos de sua estrutura sugiram que ali está a base não apenas do futuro Desonra, mas o laboratório dessa personagem feminina que está no centro de ambos os romances.
De início, o livro captura o leitor pelo impacto da cena em que a narradora mata o pai e a madrasta, impiedosamente, já nas primeiras páginas, num ato de extrema violência e barbárie. Queremos saber então o que houve de tão terrível para que ela chegasse àquele paroxismo de horror, para logo mais à frente descobrir que tudo fora apenas imaginado. Interessante.
O que não quer dizer que ela não matará o pai, ela o fará, mas então já estamos imersos nos domínios dessa mente completamente devastada pela solidão, pelo abandono, pelo desalento. A mulher que narra os acontecimentos apodera-se de nossa sensibilidade de modo avassalador. Ela não apenas age o tempo todo, como pensa o tempo todo, pensa sozinha, fala sozinha, ela praticamente desvaira sozinha. E filosofa.
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[Que fazem a dor, o ciúme, a solidão na noite africana? Uma mulher à janela, olhando para a escuridão, significa alguma coisa? Coloco os dez dedos na vidraça fria. A ferida em meu peito se abre. Sou um emblema, sou um emblema. Sou incompleta, um ser com um buraco por dentro, significo alguma coisa, não sei o quê, sou tola, através de uma lâmina de vidro olho para a escuridão que é completa, que vive em si mesma, morcegos, arbustos, predadores, tudo que não me diz respeito, que é cega, que não significa, simplesmente é. [p. 16]
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Talvez nessas longas reflexões sobre a natureza das coisas, recorrentes elocubrações mentais que não têm fim, talvez aqui resida uma nota de fragilidade na estrutura, porque a mim pareceu que essa personagem não poderia ter o nível de elaboração ou complexidade filosófica que o autor lhe empresta (diferentemente do Riobaldo, aqui senti a estrutura meio falsa).
Dá a impressão de que há alguém 'soprando' aquela coisa toda para ela dizer, pensar. Mesmo assim, há uma força descomunal em tudo que faz, há uma obsessão - a obsessão dos loucos - a guiá-la para seu inelutável destino trágico.
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Aqui também o estupro é um acontecimento fundador. A personagem não apenas habita uma fazenda distante do 'mundo civilizado', como tem sua solidão de mulher acentuada por traços físicos desagradáveis e porque não há mesmo com quem interagir naquele fim de mundo. A violência sobre ela aprofunda uma espécie de loucura que já a habita desde o início, e ela radicaliza o jogo entre opressor e oprimido: passa a servir sexualmente o empregado negro que a viola e, mais ainda, muda as relações de domínio até então existentes.
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Quase tudo que acontece gira em torno desse pai, que ela deseja e odeia intensamente, origem dos delírios e das perquirições que persegue ao longo da narrativa. Não se trata de compreender por que ela precisou matar o pai, mas grande parte do que se lê constitui a voz assustadora desse ser, que não por acaso é uma mulher, buscando compreender o que faz ali, como chegou àquele estado de deterioração humana, como se tornou quase um bicho, como sobreviver ao inteiramente só.
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Ela então começa a ouvir vozes, e depois começa a ver fantasmas, e eles são, afinal, tudo que lhe resta. Pode sentar com o pai (morto) e tomar conta dele, cuidá-lo como sempre fora seu trabalho. E caminhar lentamente rumo a uma certa pacificação, com perguntas para as quais aceita não ter respostas.
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Dois momentos do pai:
Quando Hendrik está fora, executando algum miserável trabalho no calor da tarde, meu pai visita sua esposa. Cavalga até a porta do casebre e, sem desmontar, fica esperando até que a menina saia e se ponha à sua frente, piscando ao sol. Ele lhe fala. Ela se mostra acanhada. Oculta o rosto. Ele tenta acalmá-la, talvez chegue a sorrir, mas não consigo ver. Inclina-se e lhe dá um embrulho de papel pardo. São balas, corações e diamantes com lemas escritos. Ela fica segurando o pacote, ele se vai. [p. 46].
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Meu pai está sentado, se é que se pode chamar isso de sentar-se, em sua antiga poltrona de couro, a brisa fresca na pele. Seus olhos não vêem, são duas paredes vidradas azuis, orladas de rosa. Nada ouve, só o que se passa dentro dele, a menos que eu tenha estado o tempo todo equivocada e ele me ouça tagarelar, embora prefira não me fazer caso. Já tomou ar por hoje, é hora de levá-lo para dentro e descansar um pouco. [p. 178]
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J. M. Coetzee. No coração do país. Tradução Luiz A. de Araujo. São Paulo: Círculo do Livro, 1997.
Quinta-feira, 11 de Junho de 2009
O mesmo filme
Eu poderia ver A partida sob outra perspectiva, a da vida que pulsa ali também, e poderia dizer que o protagonista encontra nas lides com os defuntos um novo trabalho, com o qual ele vai aos poucos se encontrando, e que vai aos poucos dando um novo sentido a sua vida.
Se inicialmente ele recusa aquela função, por mal vista pela comunidade - e depois mais radicalmente desprezada pela mulher -, aos poucos ele vai percebendo a beleza que há em todos os pequenos sinais de apreço que o defunto merece receber em sua hora final, e ele vai gostando do que faz, vai-se aperfeiçoando nos detalhes, nos cuidados, vai, de certo modo, honrando aquele que parte, oferecendo-lhe uma última nota de dignidade. E aos poucos aqueles que estão a sua volta também se modificam, também vêem o que há de belo e necessário no trabalho do homem.
(Tudo isso é comovente, mas às vezes um pouco arrastado demais).
E se a vida está presente como resposta ao momento final de cada um de nós, a vida que insiste em achar saídas para a beleza, claro (por exemplo, a música do violoncelo, a liberdade encenada pelo homem e seu instrumento no descampado verde e imenso a sua volta), é desse momento que o filme trata, é desse gesto de torná-la - a morte - uma cerimônia que embeleza os que vão, e engrandece os que ficam.
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(PS. A esta versão se pode assistir comendo um sacão de pipoca, discretamente; na versão abaixo será melhor segurar as pontas).
Domingo, 7 de Junho de 2009
A partida
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Li em algum lugar que A partida aborda a morte mas quer mesmo falar é da vida. Sinto discordar, mas para mim foi o filme mais barra pesada sobre a morte que já vi. De um modo suave, poético, é verdade, mas é da morte que ele trata todo o tempo, da morte morte, aquela dos defuntos sendo cuidados, do corpo sendo cremado, dos rituais de vestir, limpar, velar, cuidar do morto, com sua cara de morto, seu jeito de morto, sua morte morte.
Em alguns momentos fiquei incomodada, tudo é bem lento, bem oriental, mas no terço final do filme (que é longo, dura mais de duas horas) a coisa fica impossível e a gente chora mesmo, porque o protagonista vai enfim rever o pai, que o havia abandonado quando ele era criança. Precisa dizer em que circunstâncias isso acontece? É de cortar o coração, isso para ficar no espírito um tanto sentimental dessa parte final.
Enfim, se alguém quer travar uma conversa em bom estilo com essa senhora, que está longe de ser aqui a 'indesejada das gentes', esse é o filme. E o ator que faz o protagonista é qualquer coisa, bom demais, muito expressivo, meigo, belo e sensível. Ah, e toca um senhor violoncelo.
Sexta-feira, 5 de Junho de 2009
A mulher invisível
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Gostei de ter visto A mulher invisível, mas há um grande problema no filme que diz respeito ao tom narrativo. Ele não é inteiramente comédia, mas sua vocação é para ser completamente comédia. Ou seja, quando os personagens se entregam àquela maluquice da relação com a mulher invisível o filme fica engraçado, mas quando advém um certo ar de drama, a coisa desanda.
Tanto a vocação do filme é a comédia que a parca aparição da Fernandinha Torres dá uma levantada geral no humor, ela está impagável nos poucos momentos em que fica na tela.
O gracinha do Selton Mello tem altos e baixos, bem no estilo das várias vozes que ele usa e abusa no filme - uma espécie de gag de voz fina e grossa, além dos tiques de sons que explora com algum resultado de humor. Acho que ele percebe que precisa explorar mais o humor do que o drama que o diretor impõe, não sei.
De todo modo, não sou indicada para falar do Selton porque sou tiete, então vejo qualidades até nos defeitos dele - e aqui tem alguns defeitos, sim, sobretudo nas cenas de romance que ele faz sozinho, como se estivesse com a Luana, que me parecem um tanto exageradas.
Ah, e a Luana está belíííísssima - é o máximo que posso dizer da atuação dela que, aliás, é para ser isso mesmo: a gostosona do pedaço.
A trilha sonora é muito boa, com minha ídola de juventude Janis Joplin abrindo e fechando o filme. Enfim, se não houver grandes expectativas, dá para ver e arejar a cabeça.
Santayana again
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Parece que vou ficando fã do Mauro Santayana, talvez porque tenho a chance de lê-lo no JB que eu assino nos fins de semana, mas não apenas por isso, porque no mesmo jornal há textos do Vilas-Boas Correa, por exemplo, que eu acho chatíssimos.
De todo modo, ouvi o discurso do Obama na CNN (coisa impressionante é que eu entendo quase tudo que ele fala, a dicção é ótima, o mesmo não acontece com os comentadores e jornalistas da rede) e achei bom demais, uma fala tocante e corajosa, com um sopro de vigor semelhante ao discurso da vitória. Sim, me declaro fã do Obama, que fazer se o homem é o cara.
E reproduzo o texto do Mauro porque também achei muito bom (ele só deixou de mencionar a defesa que Obama fez dos direitos incondicionais de a mulher estudar, sob qualquer tipo de regime. Foi bonito de ouvir, emocionante também).
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O discurso do Cairo
http://www.jblog.com.br/politica.php 05/06/2009 - 00:05 Enviado por: Mauro Santayana
Pouco importa o que virá depois, porque nenhum homem, nenhum povo, tem em suas mãos as rédeas da História. A rota do homem na Eternidade é semelhante às estradas nos mapas antigos, nos quais as cidades eram marcadas sucessivamente em uma linha reta, com os dias de jornada entre uma e outra. Não podemos retificar o caminho da civilização, fazendo-o derivar para mais ao Norte ou mais ao Sul do tempo transcorrido. Só podemos nos situar no ponto em que nos encontramos, neste dia, nesta hora, neste minuto. O discurso de Obama, no Cairo, foi para este dia, esta hora, este minuto. Mas este dia é a soma dos milhões de dias passados. Em razão disso, o presidente foi lá, nas marcas da rota do mapa antigo, para explicar que somos caminhantes de inúteis e ilusórias intolerâncias.
Obama falou aos muçulmanos, na Universidade do Cairo, que segue a tradição de um dos centros de cultura mais antigos do mundo, a universidade islâmica de Al Azhar, criada no século 10. O discurso de Obama foi importante para mostrar o que tem sido a banalidade da insensatez na história dos povos, e o seu interesse político legítimo se situou no falso confronto entre o islã e a cultura judaico-cristã. Ele poderia ter sido mais claro, na contrição que nos cabe, e se ter referido às Cruzadas e à expedição de Juan de Áustria contra os otomanos, vencidos em Lepanto (1571) pelas forças aliadas da Espanha de Filipe II, da República de Veneza e do papa Pio V.
O exame da História – e nisso Obama foi preciso – mostra que os muçulmanos sempre foram muito mais tolerantes diante de outras crenças do que os cristãos. Ele se referiu à Andaluzia, sob o Califato de Córdoba, que, durante sete séculos, não conheceu perseguição contra os cristãos, nem contra os judeus. As três culturas conviveram bem, como atesta, entre outros documentos, as conversações interreligiosas (Libre del Gentil e dels três Savis, de Ramon Lull, no século 13) entre muçulmanos, cristãos e judeus, quando concluem que têm o mesmo Deus.
As palavras do presidente, não obstante as necessárias e fundadas referências históricas, são ditadas pelos desafios da atualidade. Ele foi corajoso, ao dizer que a guerra contra o Iraque não nasceu da necessidade, mas foi escolha política equivocada. Foi ainda mais firme, quando assegurou que “nenhum sistema de governo pode ou deve ser imposto sobre uma nação, por qualquer outra”. Mesmo amenizando o discurso – ao afirmar que os americanos têm relações mais fáceis com os países democráticos de modelo ocidental – trata-se de virada histórica na política externa dos Estados Unidos.
Embora cercado de todos os cuidados, Obama deixou claro que, sob seu governo, o Estado de Israel não contará com a carta branca de Washington para fazer o que desejar. Defendeu, de forma destacada, o direito do povo palestino à autodeterminação, dentro de fronteiras estatais seguras. Condenou, sem qualquer concessão, a existência dos assentamentos judaicos nos territórios atribuídos aos palestinos em 1948, bem como outras formas de violência sobre as populações da Cisjordânia e de Gaza. Não poderia deixar de reclamar também o reconhecimento do Estado de Israel pelos palestinos, mas não conseguiu ocultar a sua simpatia pelos menos poderosos, massacrados periodicamente pelo Exército de Israel.
Outro ponto importante foi o reconhecimento de que Washington derrubara um governo eleito democraticamente no Irã. Ele se referia ao golpe patrocinado pela CIA e pelos serviços britânicos, em 1953, contra Mohammed Mossadegh, que nacionalizara o petróleo e obrigara o xá Reza Pahlevi, aliado das empresas estrangeiras, a buscar o exílio.
Ontem mesmo, a direita norte-americana, acampada no Partido Republicano, insurgiu-se violentamente contra o discurso do presidente. O deputado republicano John Boehner, líder da minoria, disse que o pronunciamento do presidente revelava “fraqueza” dos Estados Unidos. Ao contrário: Obama confirmou velho adágio político, o de que só os fortes podem parecer fracos.
O discurso do Cairo foi o mais importante pronunciamento de um presidente dos Estados Unidos no exterior. A História, se ele conseguir torná-lo realidade, poderá registrá-lo como registrou o de Lincoln, em Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, em que o estadista curvou-se diante de todos os mortos de uma guerra que a política não conseguira evitar. O Cairo está na linha histórica da velha cidade da Pensilvânia.
Sexta-feira, 29 de Maio de 2009
Difícil Onetti
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Tenho resistido o quanto posso a falar de A vida breve, porque acho muuito difícil comentá-lo, já que o livro é, ele mesmo, difícil. Então, para começar, sugiro vivamente um texto excelente da doutoranda da Puc-Rio Ariadne Costa (não a conheço), que encontrei na rede, sob o título "De onde se fala - narrativa e espaço ficcional em J. C. Onetti", no link http://www.abralic.org.br/cong2008/AnaisOnline/simposios/pdf/067/ARIADNE_COSTA.pdf
Estudiosa de Onetti e ótima leitora, Ariadne faz observações absolutamente esclarecedoras sobre a obra e o processo criativo do autor, e foi no ensaio que li o mais preciso resumo do texto complexo e difícil do uruguaio:
O romance conta a história da transformação de seu protagonista, Juan Maria Brausen, em um autor. Em um período em que a solidez de seus compromissos entra em crise – seu casamento chega ao fim, seu emprego está em risco, as antigas relações de amizade já não são gratificantes – Brausen, um publicitário uruguaio radicado na Argentina, recebe a encomenda de produzir um roteiro de cinema. É um trabalho freelancer que alguém lhe propõe por camaradagem, para ajudá-lo a juntar algum dinheiro. Mas a tarefa oferece a Brausen um caminho para escapar de seu cotidiano em ruína, e ele passa a se dividir entre a vida concreta, da qual vai gradualmente se despedindo – e se despindo – e o universo imaginário, cuja importância crescente termina por suplantar a do mundo real. Brausen começa por imaginar a história de um homem, o médico Días Grey, e da cidade por ele habitada, Santa María. Pelos olhos de seu personagem, através da janela de seu consultório, Brausen vai desenhando o mapa: o rio, a colônia suíça, o estaleiro ao longe, a praça central com a igreja. Paralelamente à criação dessas imagens e das situações que envolvem o médico, Brausen vai se desprendendo de tudo aquilo que o ata à sua própria realidade: seu casamento, seu emprego, suas relações sociais e, por fim, seu nome próprio. E inventa para si uma outra identidade, Arce, sob a qual passa a levar uma vida paralela, até tornar-se um fugitivo e abandonar definitivamente sua vida em Buenos Aires. Seu percurso de fuga termina justamente na Santa María de sua criação, onde, anônimo, ele presencia um diálogo entre seus próprios personagens (diálogo este que figurará no final do romance Juntacadáveres, publicado catorze anos depois). Tem início, assim, a saga de Santa Maria, que é lida aqui como um único texto, longo e fragmentado, cujas partes se podem juntar, como um quebra cabeça, para contar a história da vida da cidade e de seus moradores. As obras seguintes de Onetti já têm lugar nessa terra imaginária, seus habitantes são os personagens Brausen.
Em outro momento, ela faz uma observação importante sobre a natureza e a função de Brausen na narrativa:
Começar a contar é já criar um mundo. Cada nova narrativa inaugura um novo espaço e, havendo dois ambientes, haverá sempre, entre eles, uma fronteira. Brausen habita essa fenda. Ao começar a narrar, ele funda um espaço inaugural e adquire um poder que lhe permite romper com o mundo real, onde a vida que ele, até ali, construiu para si, já não o satisfaz. Mas a cisão espacial indica, ainda, uma partição no sujeito que navega entre os dois ambientes. O romance relata a passagem de Brausen para o “outro lado”. É a história de um trânsito. Migrar de Buenos Aires a Santa María é passar de personagem (objeto da fala) a narrador (sujeito da fala), ou ainda, de escritor (pessoa) a autor (função do discurso). Santa María nasce do ato de narrar executado por Brausen, mas esse mesmo ato também transforma seu agente.
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Como não pretendo analisar a obra, longe disso, minhas anotações acabam sendo muito pessoais e complicadas, porque o que ecoa profundamente em mim n' A vida breve é seu trabalho de luto, no sentido mais visceral do termo: esse é um livro sobre perdas, um réquiem triste e belíssimo para todas as coisas que "a vida nos promete, nos dá e depois deixa de dá-las".
E toda vez que mergulhava na leitura do livro, sentia a pertinência desse momento de A hora da estrela:
Devo acrescentar um algo que importa muito para a apreensão da narrativa: é que esta é acompanhada do princípio ao fim por uma levíssima e constante dor de dentes, coisa de dentina exposta.
(Senti todo o tempo essa mesma dor, a dentina exposta).
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Posso, por exemplo, não ouvi-la, não entender o que diz; mas não posso suportar a desolação e as lágrimas que movem sua voz quando fala comigo. Morta seria pior, mas seria definitivo; morta não ficaria mais de vinte e quatro horas a meu lado para dar-me a entender, em silêncio, que morreu, para não me deixar esquecer. Viria repetir-me isso em lembranças, mas não todos os dias; pelo menos, todos os dias só no começo; e nunca mais ela mesma, nunca mais afirmando de forma monótona e permanente sua desgraça e a minha. [p. 53]
> Quando a morte do outro funda o desejo de libertação da coisa que oprime, e a impiedade torna-se a única alternativa para o fluir da vida; somos também aqui assassinos frios, queremos com ele que Gertrudis e seu peso desapareçam, queremos também nuvens leves; mas somos também Gertrudis e sua desolação, o enorme buraco em seu peito, literal e metaforicamente, somos sua dor aguda e irremovível, vivemos com ela isso.
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Não quero suportar a imagem de Gertrudis deitada de costas, vigiando alternadamente os pratos de uma balança, calculando a intensidade das dores que podem, a qualquer momento, transmitir-lhe um novo aviso de doença a partir do pulmão e estudando, no outro prato, as probabilidades que tem de voltar a viver, de participar, de interessar-se e conquistar, de causar pena. E ela e eu descobrimos, desanimados, com um horror já atenuado pela repetição, que todos os temas podem levar-nos ao lado esquerdo de seu peito. Temos medo de falar; o mundo inteiro é uma alusão a sua desgraça. [p.55]
> Reconheço essa expectativa, sei do que ele está falando, sinto a mesma opressão que ela, o mesmo medo, e me espanta que um escritor e narrador homem tenha conseguido mergulhar nas trevas dessa espreita (que não cessa).
***'Gertrudis e o trabalho imundo e o medo de perdê-lo’ – ia pensando, de braço com Stein -; ‘as contas atrasadas e a certeza inesquecível de que não há em lugar algum uma mulher, um amigo, uma casa, um livro, nem mesmo um vício, que possa me fazer feliz. [p.59]
> Há no trecho o peso de um enorme desalento – lembra o “jamais alguém se sentiu tão só” de virginia woolf, outra irmã da solidão absoluta.
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Etc, etc, etc...
Domingo, 24 de Maio de 2009
de molho
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Vontade de ir ver o Pilobolus no Vivo Rio, aqui pertinho e num ótimo horário, mas estou gripada, meio febril, e não acho justo impor meus vírus a outras pessoas, basicamente porque tampouco gosto de estar em contato com gente gripada, logo...
Mesmo motivo para não ir ao cinema, mas talvez possa usar minha máscara e ver aqui no Museu da República o Beijo não boca, não, será que vale? Tenho um pouco de vergonha de usar a máscara, devem achar que estou pior do que estou e podem querer me expulsar do cinema...:) quantos dilemas uma gripe hoje nos traz (claro que a suína está todo o tempo falando em surdina nesses comentários).
Terça-feira, 19 de Maio de 2009
ou enchente ou seca
Estou replicando um artigo sobre as enchentes no Nordeste, especificamente no Ceará, por todas as razões.
Enchente CE. Multiplique a rede de solidariedade http://liberdade.blogueisso.com/2009/05/17/enchente-ce/
Emílio Moreno 17 / maio / 2009
A situação das vítimas atingidas pelas chuvas no Ceará se agrava a cada dia. Segundo o último balanço da Defesa Civil, 15 pessoas haviam morrido no Ceará, mais de 60 mil pessoas estão desabrigadas e desalojadas. Cerca de 100 mil pessoas em todo o Estado foram atingidas pelas chuvas.
A quantidade de municípios cearenses atingidos chega a 78, sendo que as regiões onde a situação é mais crítica são a Jaguaruana e Norte. Autoridades médicas estão preocupadas com a propagação das doenças causadas pelas chuvas e alertam para os riscos de viroses e doenças de pele.
O cearense tem se mostrado um povo solidário. Mas ainda não é o suficiente diante do drama vivido por essas. É nítida a indiferença da mídia nacional diante de um quadro tão sério no Ceará e em outros estados Nordestinos.
a rede que cresce
Uma rede de solidariedade se formou em todo o Estado e agora a Coelce também integra essa mobilização. Para beneficiar o maior número de famílias, a companhia vai dobrar a quantidade de alimentos arrecadados.
Em todo o estado as 200 lojas de atendimento da concessionária de energia elétrica receberão donativos de 18 de maio até 1º de junho. Doe arroz, feijão, macarrão, leite em pó, farinha e demais alimentos não-perecíveis.
Espalhe essa mensagem e multiplique esse gesto solidariedade com o povo cearense.
Veja os outros pontos de doação
O POVO
Avenida Aguanambi, 282 - José Bonifácio
Fone: (85) 3255 6101
TV Jangadeiro
Endereço: Av Antônio Sales, 2811, Dionísio Torres
Secretarias Executivas Regionais (SERs) de Fortaleza www.fortaleza.ce.gov.br
Corpo de Bombeiros do Ceará
Fones: (85) 3101 2227, 3101 1078, 3101 2018, 3101 2018, 3101 5662
Sede da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL)
Endereço: Rua 25 de Março, 882, Centro
Sede da Federação das Indústrias (FIEC)
Endereço: Av. Barão de Studart, 1980, Aldeota
Rede Bancária
Agências do Banco do Nordeste (BNB), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal
Outros estabelecimento
Casas lotéricas, Agências dos Correios, Supermercados Extra e Supermercados Pão de Açúcar
Núcleos do Serviço Social da Indústria (SESI) www.fiec.org.br/sesi
Cruz Vermelha
Endereço: rua Dr. José Lourenço, 3280, Joaquim Távora
Aberto das 9 às 17 horasTelefone: (85) 3472 3535
Doações em dinheiro na conta da Cruz Vermelha
Caixa Econômica Federal Ag.: 3281; Operação: 003; C/C: 300-1
Banco do Brasil Ag.: 3515-7; C/C: 11024-8
Banco do NordesteAg.: 016; C/C: 29393-8
notinha sobre leite
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Comecei a ler as primeiras dez páginas de Leite derramado, do Chico, fui um pouco além e achei insuportavelmente ruim, sem a menor possibilidade de terminar, pelo menos no futuro próximo. Não acho que seja porque estou ainda sob o impacto da frase, do pensamento, da força, da brutalidade - ou seja, da grandeza - de A vida breve. É porque o Chico fez uma coisinha, uma literaturazinha, uma historinha, uma porcariazinha de frase que não desce de jeito nenhum. Como essa do parágrafo inicial:
Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família.
Tirando 'não é por causa da morfina', que rende um pensamento um pouco mais além do leitor quanto ao papel dessa morfina na vida do narrador, nada se aproveita do que se lê, tudo é chão, bobinho, sem densidade, sem força.
E assim continua ('Acolhi condolências formais, efusões de desconhecidos, mãos pegajosas e hálitos azedos, já sem grandes esperanças de Matilde.', p. 31) pelas páginas adiante, um texto aquém do que o Chico pode fazer e já fez.
Acho meio imperdoável que um artista com a bagagem dele faça ainda esse trabalho fraquinho e a mídia toda caia a seus pés, em razão, exatamente, de seu peso na cultura do país. Mais uma razão para fazer muito melhor do que fez aqui - porque acho que ele pode.
Segunda-feira, 4 de Maio de 2009
doc e filme para homens
Terra é um documentário que merece ser visto, não se trata apenas de um National Geographic em tela grande, tem grandes cenas, quase épicas, dos animas em busca de uma saída para a vida.
E tem um pássaro lindo, jamais visto por esses olhos, ou outros.
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Já Eu te amo, cara é meio patético, e o fato de estar sendo vendido como um filme para o público masculino me faz pensar que se trata apenas de mais um jogo de mídia, porque não posso acreditar que os homens brasileiros se prestem a esse nível de idiotia. Acho que as piadas fazem mais sentido na cultura estadunidense, cujo tipo de humor eu, particularmente, acho sem graça.
Mas posso estar enganada, claro, e o filme seja mesmo para os 'macho men', portanto eu não teria condições psíquicas, sendo mulher, de avaliá-lo. Pode ser.
De todo modo, aquele cara grandão com jeito de marlon brando - jason segel -, inclusive numa certa doçura, salva o tempo (não o filme), porque faz bem vê-lo.
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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009
mauro santayana e a ganância
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Não conheço bem o Mauro Santayana, mas ele disse tudo o que todos precisam saber sobre a gripe suína, na descrição e síntese perfeitas do artigo abaixo. Como sempre, a força das mega indústrias transnacionais que atuam sem controle parece estar na origem de toda miséria, sobretudo contra os países pobres.
O que mais me chocou foi essa informação : "pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país".
Isso também acontece pelo interior do nosso país, não tenho dúvidas.
A gripe dos porcos e a mentira dos homens
JB - 1º de maio 2009 - Por Mauro Santayana - maurosantayana@jb.com.br
O governo do México e a agroindústria procuram desmentir o óbvio: a gripe que assusta o mundo se iniciou em La Glória, distrito de Perote, a 10 quilômetros da criação de porcos das Granjas Carroll, subsidiária de poderosa multinacional do ramo, a Smithfield Foods. La Glória é uma das mais pobres povoações do país. O primeiro a contrair a enfermidade (o paciente zero, de acordo com a linguagem médica) foi o menino Edgar Hernández, de 4 anos, que conseguiu sobreviver depois de medicado. Provavelmente seu organismo tenha servido de plataforma para a combinação genética que tornaria o vírus mais poderoso. Uma gripe estranha já havia sido constatada em La Glória, em dezembro do ano passado e, em março, passou a disseminar-se rapidamente.
Os moradores de La Glória – alguns deles trabalhadores da Carroll – não têm dúvida: a fonte da enfermidade é o criatório de porcos, que produz quase 1 milhão de animais por ano. Segundo as informações, as fezes e a urina dos animais são depositadas em tanques de oxidação, a céu aberto, sobre cuja superfície densas nuvens de moscas se reproduzem. A indústria tornou infernal a vida dos moradores de La Glória, que, situados em nível inferior na encosta da serra, recebem as águas poluídas nos riachos e lençóis freáticos. A contaminação do subsolo pelos tanques já foi denunciada às autoridades, por uma agente municipal de saúde, Bertha Crisóstomo, ainda em fevereiro, quando começaram a surgir casos de gripe e diarreia na comunidade, mas de nada adiantou. Segundo o deputado Atanásio Duran, as Granjas Carroll haviam sido expulsas da Virgínia e da Carolina do Norte por danos ambientais. Dentro das normas do Nafta, puderam transferir-se, em 1994, para Perote, com o apoio do governo mexicano. Pelo tratado, a empresa norte-americana não está sujeita ao controle das autoridades do país. É o drama dos países dominados pelo neoliberalismo: sempre aceitam a podridão que mata.
O episódio conduz a algumas reflexões sobre o sistema agroindustrial moderno. Como a finalidade das empresas é o lucro, todas as suas operações, incluídas as de natureza política, se subordinam a essa razão. A concentração da indústria de alimentos, com a criação e o abate de animais em grande escala, mesmo quando acompanhada de todos os cuidados, é ameaça permanente aos trabalhadores e aos vizinhos. A criação em pequena escala – no nível da exploração familiar – tem, entre outras vantagens, a de limitar os possíveis casos de enfermidade, com a eliminação imediata do foco.
Os animais são alimentados com rações que levam 17% de farinha de peixe, conforme a Organic Consumers Association, dos Estados Unidos, embora os porcos não comam peixe na natureza. De acordo com outras fontes, os animais são vacinados, tratados preventivamente com antibióticos e antivirais, submetidos a hormônios e mutações genéticas, o que também explica sua resistência a alguns agentes infecciosos. Assim sendo, tornam-se hospedeiros que podem transmitir os vírus aos seres humanos, como ocorreu no México, segundo supõem as autoridades sanitárias.
As Granjas Carroll – como ocorre em outras latitudes e com empresas de todos os tipos – mantêm uma fundação social na região, em que aplicam parcela ínfima de seus lucros. É o imposto da hipocrisia. Assim, esses capitalistas engambelam a opinião pública e neutralizam a oposição da comunidade. A ação social deve ser do Estado, custeada com os recursos tributários justos. O que tem ocorrido é o contrário disso: os estados subsidiam grandes empresas, e estas atribuem migalhas à mal chamada “ação social”. Quando acusadas de violar as leis, as empresas se justificam – como ocorre, no Brasil, com a Daslu – argumentando que custeiam os estudos de uma dezena de crianças, distribuem uma centena de cestas básicas e mantêm uma quadra de vôlei nas vizinhanças.
O governo mexicano pressionou, e a Organização Mundial de Saúde concordou em mudar o nome da gripe suína para Gripe-A. Ao retirar o adjetivo que identificava sua etiologia, ocultou a informação a que os povos têm direito. A doença foi diagnosticada em um menino de La Glória, ao lado das águas infectadas pelas Granjas Carroll, empresa norte-americana criadora de porcos, e no exame se encontrou a cepa da gripe suína. O resto, pelo que se sabe até agora, é o conluio entre o governo conservador do México e as Granjas Carroll – com a cumplicidade da OMS.
Terça-feira, 28 de Abril de 2009
é muito quarto 2
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Considerando que:
1. Empaquei na leitura de A vida breve, do Onetti, que é sem dúvida um livro de difícil sequência, um livro duro de ler;
2. A possibilidade de uma pandemia de gripe suína no país é real, visto que os governantes e responsáveis pela saúde pública aqui são totalmente incompetentes e irresponsáveis;
3. O vosso presidente disse que "o problema de saúde de Dilma não é grave", embora os linfomas sejam sempre, no mínimo, para ser tratados sem leviandade.
Assim, face a esses impasses, volto a meu último tema, e trago mais um pouco de informação sobre o palpitante tema 'quarto da Xuxa'.
Descobri, em minhas pesquisas de campo, que o tamanho do quarto equivale ao tamanho da galeria do 228 da rua do catete. Quem toma o delicioso capuccino do primeiro quiosque conhece o espaço. Eu me dei ao trabalho de perguntar ao porteiro, que fica num cubículo à esquerda de quem entra, e ele confirmou que da entrada até a porta da Caixa tem-se uns 450m2.
Fiquei olhando bem aquilo e concluí: dá para dar um bailinho de ilhota fiscal.
Sábado, 25 de Abril de 2009
é muito quarto
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O quarto da Xuxa na nova casa da Gávea tem 400m2. Suponho que ela ande nele de patins, ou de bicicleta, ou naqueles carrinhos de golfe ou... a pé já seria em si uma grande aeróbica.
Mas, enfim, não consigo imaginar muito o que sejam 400m2 apenas em um quarto, nem avaliar o que move a necessidade de alguém por tanto espaço - ou seria poder?
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Quinta-feira, 23 de Abril de 2009
ministro joaquim
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Para quem desejar solidarizar-se com o Ministro Joaquim Barbosa, que teve a audácia de enfrentar aquele senhor que preside o Supremo, aqui vai o email que peguei no site do idelbaravelar, onde, aliás, há ótimos comentários sobre o assunto:
gabminjoaquim@stf.gov.br
Segunda-feira, 20 de Abril de 2009
duas formas de ver a escola
Sobre Entre os muros da escola, a primeira sensação que tive, ao fim do filme, foi de alívio porque não terei mais, jamais de la vie, de viver situações como aquela em sala de aula.
Quando trabalhei com aquele tipo de aluno (os chamados "baixa renda"), logo no início de minha carreira, eles sempre se mostraram super interessados, esforçados, queriam mesmo aprender porque naquele tempo se acreditava (eles e nós) que a educação mudaria suas vidas para melhor, que eles ascenderiam de classe social através do estudo, deixariam de ser porteiros, empregadas domésticas, babás, enfim, o que fosse, e melhorariam de emprego e de salário. Isso foi antes da desilusão e do cinismo tomarem conta da cena política e social por aqui. E isso também diz respeito a um país que quase não existe mais, em que valores fortes ainda podiam ser tomados como referência para uma 'ética do trabalho' (e da vida).
Achei o filme meio bobinho, não me senti próxima daquele professor em quase nenhum momento, só com muito dó dele estar enfrentando aquele caos com muito pouco domínio da turma. Parece que o sistema francês é mais caótico do que o nosso, mas não tenho mesmo a menor idéia do que esteja acontecendo nas salas de aula dessa faixa social por aqui, hoje. Sei que não é mamão com açúcar, mas não tenho dúvida de que se um professor vai dar aula na Rocinha tem de estar próximo daquele mundo de referências, tem de se adequar (se não for morto antes, claro) ou não fará absolutamente nada. E aquele homem está distante demais de seus alunos, dá a impressão de que ele não está ali verdadeiramente, ele é e parece ser 'o outro', e os alunos sabem disso. E não perdoam, claro, caem em cima dele com vontade.
De todo modo, talvez fosse interessante fazer um paralelo com o filme norte-americano Escritores da liberdade, com Hilary Swank, de forma a confrontar não apenas duas culturas e dois modos de 'encenar' problemas semelhantes, mas de explorar os 'tempos' fílmicos, as maneiras distintas de pensar e fazer cinema. Isso porque há muitas semelhanças (até a pobre Anne Frank e seu diário são objeto de leitura e aprendizagem de 'valores' com relação aos excluídos - o que também daria uma discussão muito útil sobre o uso 'didático' e 'moral' da literatura em sala de aula) entre os dois projetos, e enormes diferenças também. Enfim, fica a sugestão.
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Por amor
Ashton Kutcher, o belo homem de um milhão de 'twitteros', até que se houve bem no papel mezzo dramático que faz, ao lado de Michelle Pfeiffer, no mediano Por amor. Não vi muitos filmes com ele, mas de vez quando zapeio por um programa de humor que ele protagoniza em um desses canais da net, e francamente, aquilo é uma idiotice só, bem nos padrões do humor e da cultura lá deles - ou seja, sacanear os outros eles acham muito engraçado...
De todo modo, gostei de ter visto o filme e até me surpreendi - vejam só - com a primeira e única vez em que vi num filmão americano um protagonista, e também galã, com aquela coisa nojenta nos olhos num close indisfarçável - e no filme isso significa que o rapaz é descuidado, meio fora do esquadro, um outsider - claro que nos padrões lá deles. É um recurso tão primário que acaba ficando um tanto engraçado (para ficar na praia do rapaz).
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Valsa com Bashir
Valsa com Bashir passa na tela como uma estória que tivesse personagens reais, e não como o desenho animado que é, e emociona fortemente o espectador, sobretudo por causa dos diálogos inteligentes, densos, dolorosos, que coloca em cena questões de todos nós: a memória como construção seletiva de acontecimentos, em constante deslocamento e mutação; o esquecimento como terapêutica e propedêutica da dor, e ainda condição inelutável para a sanidade do protagonista, e de alguns de seus colegas, face aos acontecimentos devastadores de que fizeram parte.
A música parece ser vital para sublinhar os climas e os diversos momentos, muitas vezes pesados, da trama, e o final, com personagens (pessoas reais?) vivos, faz um "remate de males" tocante, diria mesmo chocante. Um dos mais fortes "documentários" sobre a barbárie da guerra que já vi.
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Quarta-feira, 15 de Abril de 2009
Correntes, elos, passagens
Primeiro, eu vi no blog do kovacs o link para o do fabricioteixeira, passei lá e fiquei boba de ver como um garoto tão jovem faz e pensa coisas tão bacanas. Hoje conheci por lá uma cantora - Lhasa de Sela - e ouvi uma música cantada por ela absurdamente linda, que me levou ao site http://lhasadesela.com/ , ainda não inteiramente terminado, acredito, mas com uma canção linda também. Então é assim, a gente vai somando as coisas boas, e agradecendo.
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Domingo, 12 de Abril de 2009
In on it
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Eu não vou ao teatro há uns dez anos talvez. Parei de ir porque era muito constrangedor estar tão perto de atores medíocres, falando frases medíocres - e eu acredito que o espaço da encenação teatral é muito forte, não se deve usá-lo tolamente, faz muito mal para quem assiste ver uma peça ruim, atores ruins.
Além disso, eu já havia visto aqueles acontecimentos teatrais viscerais na minha giuventú - O rei da vela (1971), Equus (1975), Trate-me leão (1977) e Aquela coisa toda (1980), com o Asdrúbal trouxe o trombone, O arquiteto e o imperador da Assíria (1970), Hoje é dia de rock (1971), A China é azul (1972), Macunaíma (1978), na genial direção de Antunes Filho. Também vi a magistral interpretação de Cacá Carvalho para Meu tio, o Iauaretê, em 1986. (Tá certo, faz muito tempo, mas e daí? Não tenho culpa se as coisas realmente boas aconteceram há tanto tempo).
Enfim, já tinha visto muita coisa ao longo da vida e não dava mais para assistir às mediocridades que pairavam sobre a cena teatral das últimas décadas.
Tudo isso para dizer que hoje retornei à sala mágica e vi um espetáculo deslumbrante, In on it, em que dois atores - Fernando Eiras e Emílio de Mello - recolocam para mim a grandeza e a magia do teatro, numa peça que emociona, faz rir e faz pensar, mas, sobretudo, que lida com a inteligência do espectador, que entra em sintonia não apenas com nossas emoções, mas joga com diversos níveis de encenação - tudo para falar de vida e morte, de perdas, rupturas, alegrias, enfim, das fragilidades e forças que nos constituem.
Ambos os atores dão um show de talento, entrega, emoção e sensibilidade, e o Fernando Eiras tem alguns momentos magistrais, em que a gente percebe o trabalho minimal de composição, perfeita.
Além disso tudo, o Oi Futuro é um teatro ótimo, dá para ir a pé e o horário não podia ser melhor, 19h30min. E vai até 28/06.
Também tem homepage interessante em http://inonit.wordpress.com/
O visitante
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O que mais toca em O visitante (além do tambor, claro) é a pungente compreensão de que cada retalho de vida importa, de que meu amigo tem razão – todo movimento existe em direção à vida, à mais vida (sim, ele quer dizer que não há instinto de morte, só há instinto de vida).
O homem com sua vida besta, suas conferências chatas, suas aulas velhas, seu livro inescrito e suas mãos ineptas para o piano – esse homem cinza, só e triste dá de cara all of a sudden com o inesperado de duas vidas intensas, jovens, criativas, em tudo precárias e instáveis.
É bonito acompanhar esse percurso do sim em direção ao sim, o tateio desajeitado de alguém em direção a uma alegria que ele nem sabia mais que podia sentir – o ator Richard Jenkins, brilhante, compõe esse percurso com minúcias, um artesão delicado das nuanças, dos momentos, dos tempos – sim, esse é um filme de vários timings, uma sucessão de timings para que a vida aconteça com suas imposições, suas brutalidades e suas delicadezas.
Ela – a vida - se desenrola a nossa frente como num filme, mas é real e próxima e terna e triste e nossa. (Embora eu não possa aceitar (mas o compreenda) o último momento da cena final como o último, claro. Ele não poderá tocar tambor para sempre naquela estação de metrô porque algo precioso cruzou os ares em direção à Síria e será imperioso que ele vá até lá, não há como isso não acontecer, não há...
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